terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Partir, Multiplicar e Partilhar: Mateus 14:13-21

Há muitas possibilidades de leitura para o texto que acabamos de ler, leituras que vão da compreensão comunitária e social do comer junto até leituras que se fundam na compreensão da inesgotável, criativa e maravilhosa capacidade de Jesus de efetuar o miraculoso. E eu começo a minha fala caminhando por algumas dessas formas de leitura até poder chegar onde eu quero chegar dentro do texto lido, o que, em grande parte, não se distanciará (e esta é a intenção, não se distanciar) das outras possibilidades de leitura.       

Duas dessas leituras, inicialmente, não estão muito distantes. A primeira delas trabalha com a ideia de que tanto a primeira quanto a segunda multiplicação dos pães e dos peixes são um exemplo de uma grande ação social comunitária, onde o dividir possibilitou o saciar da fome de todos. O que era individual passou a ser comum e, de repente, todos estavam satisfeitos, conforme o texto, e ainda mais, sobrou. É a ideia de que o Reino de Deus começa na compreensão de que não haveria mais nada que fosse de alguém, mas que tudo de todos seria para todos. A multiplicação se deu a partir da divisão e a divisão possibilitou a multiplicação, todos comeram e sobrou. Teologias de cunho mais social ou integralistas, tanto no mundo católico quando no mundo protestante e evangélico, como a teologia da libertação, a teologia pública e o evangelho integral, compreendem muito bem isso. E, em muito, eu tenho que concordar: a multiplicação dos pães e dos peixes está carregada de uma ação social compreendida e executada dentro do Reino de Deus. Ação social comunitária, comunitária e de comunidade. E aí chegamos à segunda possível leitura deste texto: é uma grande ceia. Ele olhou para o céu (verso 19), deu graças e partiu o pão. Partiu para dividir, dividiu para multiplicar, e todos comeram, gente boa e gente ruim, gente que estava ali por motivos nobres e outros não, gente confusa, gente triste, gente doente, mas também gente feliz, gente para ouvir, gente legal, gente de todo tipo. Todos comeram: homens, mulheres e crianças. Ninguém ficou de fora. Foi certamente um momento de confraternização, coisa de comunidade mesmo. Pois a gente só começa a se entender como comunidade quando a gente passa a partir, a dividir e a multiplicar, principalmente a comida, símbolo daquilo que nos aproxima. Só chamamos para comer com a gente, em casa ou nas festas de família quem está próximo e se faz mais próximo e mais próximo cada vez mais. Comer juntos é um princípio comunitário, humano e cristão. Sempre que possível, comam juntos (só tomem cuidado com o sal e com a quantidade de comida). Quando a mesa se torna comum, a conversa, a comida e a vida ficam mais gostosas. Quando eu lei esse texto eu fico imaginando lá, o burburinho daquela gente toda, sentados no chão, as mulheres conversando muito, os homens com assuntos "importantes", as crianças correndo, gritando, chorando, rindo, brincando, e a comida sendo passada de um a um, de uma a uma, partida e distribuída.            
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Agora, entre a ação humana e a intervenção divina, o milagre da multiplicação dos pães e peixes, está a compreensão de que do pouco Deus pode fazer muito. E eu também não posso deixar de entender assim também. O que vocês tem? Verifiquem (Marcos 06:38). "Tudo o que temos aqui são cinco pães e dois peixes" (verso 17, Mateus 11). Perfeito! Isso será o suficiente, será mais do que o suficiente, vai sobrar. A leitura de que Jesus, como interpretação do texto que lemos, pode usar o pouco que é oferecido a ele, transformando esse pouco em muito e esse muito em muito mesmo, a ponto de sobrar, é algo muito rico. E a grande pergunta é: o que você teria a oferecer? O que eu tenho a oferecer? O que nós, enquanto comunidade cristã (uma nova comunidade) temos a oferecer? Ainda mais agora quando tudo se apresenta de uma forma muito provisória, é tudo muito precário, muito por fazer, muito de começo, muito sozinho, muito e muito quando o que há é apenas pouco. Mas do pouco o muito pode ser feito, dentro da mesma lógica anterior: partir, dividir e multiplicar. Só que antes está o oferecer: o que vocês tem? Temos isso e estamos disposto a oferecer. Tenho isso e estou disposto a oferecer. Em João 06:09 o exemplo se torna ainda mais bonito: "Aqui está um rapaz com cinco pães de cevada e dois peixinhos, mas o que é isto para tanta gente?" Disso, o pouco do que é profundamente humano, Deus faz o muito a partir do milagre, e a coisa acontece.

No entanto, todas as vezes que leio ou penso nesse texto, mesmo compreendendo bem a lógica social que ele possui, seu princípio comunitário e de comunidade, sabendo que do pouco o muito pode ser feito a partir da ação de Deus, há algo que fica martelando a mente, incomodando, é o verso 16: "Dêem-lhes vocês algo para comer". Uma outra versão, mais antiga, a qual me lembro melhor, é mais perturbadora ainda: "Dai-lhes vós de comer". É perturbador porque coloca a gente diante da mes­­­­­­­ma situação dos discípulos: a visão de uma grande multidão que recebe de Jesus compaixão (verso 14): "Quando Jesus saiu do barco e viu tão grande multidão, teve compaixão deles e curou os seus doentes". Saber que a multidão está aí e que há doentes de todos os tipos, e que ele ainda recebe de Deus compaixão me perturba porque eu também sou discípulo, a igreja é a congregação dos discípulos, e nós estamos juntos diante da multidão. Somos também a multidão, mas, como igreja, somos e, mas e também, olhamos para ela pelo lado de fora, e olhamos de forma cristã. A multidão continua com fome. Parafraseando os textos: Jesus, mande eles embora. Já está tarde. Estamos no meio do deserto. É muita gente. Vai ficar caro, e mesmo que tivéssemos o dinheiro, fizéssemos uma "vaquinha", não valeria a pena, seria desperdício. É melhor eles irem embora. Não, ainda o verso 16: "Eles não precisam ir. Dêem-lhes vocês algo para comer".

Se é para ser cristão, tem que ser para ser comprometido com esse negócio. Se é para ser igreja tem que ser para ser, no mínino, consciente da multidão, vê-los é o mínino. Mas não só isso, consciente também da "missão". Perturbados, incomodados, inconformados e, principalmente, chamados: "Dêem-lhes vocês algo para comer", seja essa comida pão, seja essa comida peixe, seja essa comida esperança, alegria, fé, carinho, amor, respeito, vida e tudo o mais que faz parte da prática cristã, do estilo de vida cristão. Agora é com a gente: "dêem-lhes vocês algo para comer", vejam o que vocês têm, partam, multipliquem, dividam e comam juntos, de forma social e em comunidade. Pois isso é a missão da igreja. Isso é o Reino de Deus. Isso é milagre de Jesus.         

Um comentário:

Juliana Tang disse...

muito legal
tinha perdido algumas partes domingo e estava esperando o texto

obrigada, pr. Clademilson

Juliana