segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Pequenino Rebanho: Lucas 12:22-34

O texto que acabamos de ler, Lucas 12:22-34, certamente é muito mais conhecido e famoso dentro do evangelho de Mateus, como parte do que se acostumou a chamar de "Sermão da Montanha". Não só como parte, mas como conclusão do "Sermão". Até porque em Mateus, e isso é o que parece em princípio, as palavras lidas aqui em Lucas entram num contexto de ensinamentos sobre a vida dentro do Reino de Deus, é como se houvesse um seguimento de ideias e reflexões (e há) que iriam levar até ali e fechar com a frase "busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas" (Mateus 06:33). Já Lucas, para criar uma sequência lógica para os versos que acabamos de ler, coloca o texto logo depois da Parábola do "Rico Insensato", que vê na acumulação de recursos a segurança para a vida, o que se mostra (ou vai se mostrar na continuidade do texto) como algo contrário à vida dentro do Reino de Deus. Na Parábola há uma preocupação excessiva, no ensinamento de Jesus há um "não se preocupem" como início da fala. É um contraponto.

Todavia, tanto Lucas como Mateus, enquanto escritores daquilo que foi dito por Jesus, independentemente de onde tenham alocado o texto, as palavras, sabiam muito bem que aquilo que fora dito por Jesus fazia parte uma compreensão nova sobre uma nova possibilidade de se ver a vida em suas preocupações e ansiedades. "Dirigindo-se aos seus discípulos" (assim diz Lucas no verso 22) e também à multidão (assim diz Mateus) Jesus já sabia quais eram suas preocupações de vida e anseios de existência. Suas palavras, então, seguem nessa direção. 

E aí a gente começa a pensar em toda aquela gente ao redor de Jesus (discípulos e/ou multidão) ouvindo inicialmente (pela primeira vez) essas palavras. Gente que estava ali por muitos motivos, mas talvez e principalmente por verem em Jesus, em sua proposta, em seu discurso sobre o Reino, uma possibilidade real de mudança de vida, de realidade de vida, onde preocupações, necessidades e anseios pudessem ser supridos, principalmente de uma forma miraculosa, imediata, como já havia acontecido e vinha acontecendo. Estão ali não só porque querem, mas porque precisam estar. São gente, e gente precisa de coisas, e as coisas ali são roupa e comida (para tanto é preciso entender o contexto de Jesus, dos discípulos e da multidão). Para eles, o básico da vida ou o tudo da vida. Eles e elas se preocupam, anseiam por isso. Precisam, em verdade. Comida e roupa, por mais básico que isso seja (ou parece ser), era o centro de todas as preocupações daquela gente, gente da Galiléia de Jesus, que nem isso tinha para viver. Aquilo era o mínimo e o máximo ao mesmo tempo. Ali não eram apenas olhos e ouvidos atentos, eram olhos e ouvidos famintos. Jesus sabe disso. E sabe hoje também.

Certamente nós não precisamos de roupa e comida, não de uma forma tão desesperada como eles. Mas temos também nossas preocupações, necessidades e anseios de vida e existência. E estamos aqui hoje não apenas porque queremos, mas porque precisamos estar. Algo sempre nos falta e estamos na busca desse algo. Principalmente agora, um tempo de começo de realização de planos e sonhos. Somos iguais a eles e elas, somos gente. Gente igual e agora ouvindo a mesma coisa. E aí dá para pensar, aquela gente toda lá (e aqui também), sentada, em pé, agachada, encostada em alguma coisa, esperando alguma coisa de Jesus, vinda dele, feita ou falada por ele. E eu não sei, talvez não fosse aquilo, não fossem aquelas palavras: "não se preocupem com a sua própria vida". Como deixar de se preocupar com aquilo que nos ocupa de forma tão forte, que às vezes até nos angustia, as nossas necessidades e anseios? O negócio é até bonito, as aves do céus e os lírios do campo, mas a realidade é outra. É algo até desejável, não se preocupar, mas a questão era outra: como? Isso é o centro da coisa: precisar, se preocupar e buscar. E Jesus ainda acrescenta: "busquem (sim) o Reino de Deus" (verso 31).

Talvez, muitos daqueles e daquelas que estavam ali nesse primeiro momento, ficaram tristes ou decepcionados com aquelas palavras, pois elas eram o contrário de suas expectativas e suas esperanças, não atingiam suas necessidades, não supriram, não mudaram. E isso, em nada, os tornou menor, pois, preocupar-se não é um mal, nem algo feio, nem pecado, é algo profundamente e essencialmente humano. É coisa de gente. É da gente essa coisa e essa insistência de lutar com a vida para fazer dela melhor. Outros talvez se sentiram angustiados por conta da impossibilidade de viver aquilo de forma real, apesar de desejarem ardentemente por aquelas verdades, viver aquelas palavras. Estavam ali transitando entre a compreensão da necessidade, das coisas da vida, e o anseio pelos ensinamentos de Jesus, o Reino de Deus. Talvez estivessem até pensando: é bonito, mas dá medo. Imaginem só: "não se preocupar". Legal, mas irreal. A vida nem sempre nos permite isso. Mas Jesus também sabe disso. Compreende não só e muito bem a necessidade humana, o precisar das coisas, como também o sentimento humano, o nosso sentimento. E suas palavras também vão nessa direção.

Isso está apenas em Lucas, e aqui eu gosto de imaginar (mesmo que seja meio fantasia minha). Jesus deve ter dito tudo o que disse, deve ter visto todos os olhares e imaginado todos os pensamentos de todos ali (e aqui também). Tudo ainda estava no ar: "não se preocupem", "as aves do céus" (Deus cuida delas), "os lírios" (Deus as veste), "busquem o Reino de Deus em primeiro lugar", a roupa, a comida, os pagãos que buscam essas coisas. Estava tudo pairando no ar: palavras, olhos, pensamentos, sentimentos. Ele deve ter parado, deve ter respirado (talvez fundo), deve ter sorrido (um sorriso leve) e depois dito: "não tenham medo". Mas não disse só assim, disse com carinho, carinho misturado a cuidado: "não tenham medo, meu pequeno rebanho", em outras versões: "meu pequenino rebanho".

Se fosse para desejar algo para você hoje, no nosso ano que começa, eu desejaria um ano sem ansiedades, sem preocupações, mas e principalmente sem medo. Pois as aves do céus continuam aí, os lírios também, e o Reino de Deus, e o Cristo, que continua sendo o nosso pastor, de nós, seu pequenino rebanho.      

Um comentário:

Vanessa disse...

Jesus falava sério quando ele disse para buscarmos em primeiro lugar o Reino. Deus é muito mais prático do que imaginamos e Ele tem total interesse em nós, em moldar em nós o carater dele, pois assim estará preparando seu exército ou o povo dele se soar melhor assim.
Nós tratamos o evangelho de forma muito "ocidental", de forma mistica e abstrata quando na verdade ele é prático e deveria gerar em nós alguma reação, ou no mínimo um confronto.
Graças a Ele, Ele continua tendo o controle de todas as coisas e isso traz de certa forma uma tranquilidade e a "não ansiedade".
Gostei do texto e me trouxe a memória algumas coisas que tenho ouvido e refletido nos ultimos anos. =)