sábado, 25 de junho de 2011

Pastoral de despedida

“Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: "Aí está o seu filho", e ao discípulo: "Aí está a sua mãe". Daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa” (João 19:26-27).

Eu aprendi de um amigo, um bom amigo, que quando a gente chega a uma igreja para ser pastor, para começar um ministério, que a primeira coisa que a gente deve fazer, enquanto pastor, é começar a pensar, começar a se preparar e preparar o dia em que você vai deixar de ser pastor daquela igreja. E eu sempre tomei isso como algo importante. Algo sério. Por essa razão, desde muito, eu sempre imaginei como seria este momento, o momento de deixar de ser. E na imaginação, quase sempre controlável, havia muito de diferente. Mas nem tudo é como “se gostaria de ser”, nem como “deveria ser”. Algumas coisas apenas são, e ponto. Eu também sempre imaginei o que deveria dizer neste dia, o dia que se fez hoje. Teria que ser algo meu. Teria que ser algo de vocês. Teria que ser algo especial. Um resumo de tudo. Mas seria quase impossível resumir - assim - tanto tempo. Tanta experiência, tanta convivência, tantas tristezas e alegrias compartilhadas. Mas teria que ser algo assim, nosso. Como sempre foi. Mas também teria que ter um texto. Um texto que resumisse tudo. Um texto que fosse pouco mais que dissesse muito. Um texto que fosse de fim, mas também de recomeço, e que também apontasse continuidade. Que falasse mais, que fosse para além, e que, indo além, nos alcançasse, e nos atingisse em profundidade. E João 19, versos 26 e 27, texto que usei dias atrás para falar de família, sempre foi o texto escolhido. É o último texto da minha última fala. E nesta fala eu me volto para a nossa história.

Uma teoria histórica diz que o cristianismo nasceu no dia de Pentecostes, Atos 02, quando o Espírito de Deus, vindo como línguas de fogo, desceu sobre os discípulos de Jesus e lhes encheu de poder. Mas já faz muito tempo que eu não entendo assim. A igreja não nasceu da distribuição de poder, do poder de fazer e de desfazer, do poder de mandar e de “desmandar”. Tudo bem que a igreja se misturou ao poder, se confundiu com o poder e passou a viver dele. Mas não é ele que fez a igreja, não é dele que se faz a igreja. Outra teoria diz que a igreja nasceu quando Jesus chamou os seus discípulos: “lhes farei pescadores de homens”. É algo relacionado com vocação e projeto. É uma predestinação: são vocês, e é para algo: a missão, evangelismo e missões: falar, anunciar, pregar, converter e doutrinar. Mas também já faz muito tempo que eu não entendo assim. A igreja nasceu para o Reino e o Reino é muito mais do que isso, mas muito, mas muito mais “mesmo” do que isso. É tanto mais que a igreja se esqueceu do Reino.

Mas para mim, seguindo um autor chamado Harold Bloom, a igreja começa aqui, em João 19, versos 26 e 27. É um princípio de compaixão e cuidado. “Eis aí a sua mãe”, “eis aí o seu filho”, palavras de Jesus, é isto: compaixão e cuidado. A igreja nasce aqui. Esse é o caminho de “maior excelência” que Paulo nos ensina em I Coríntios 13. Esse é o ser cristão que supera esse negócio de “dons”, de cargo, de posição, de função, de doutrina ou dogma, de estatuto, de rol, de regimento, e de tantas outras coisas que inventamos. É o aquém que se fez muito além do que aquilo que a igreja buscou ser. Isto é ser igreja, isto é ser cristão, este é o caminho, e foi por aqui que eu tentei caminhar com vocês durante todo este tempo, o nosso tempo.

Talvez por isso, como igreja, nós nos fizemos diferentes. Pois aqui nunca houve pastor e ovelhas. Nunca os vi como meus ou minhas, nunca fui dono, chefe ou patrão. Nunca dei ordens, mandei ou cobrei. Não me fiz mestre, doutor ou professor. Nunca os fiz de meus alunos ou alunas, doutrinandos ou doutrináveis. Fiz-me sempre daquilo que jamais deixarei de ser de vocês, um amigo. Pois compaixão e cuidado não se ensinam, nem se mandar ser. Isso só se vive. E não se vive sendo maior, diferente, especial. É preciso ser igual, e estar junto. Foi assim que eu tentei ser pastor, cuidando de vocês (e se não cuidei o suficiente, peço perdão). Foi assim que eu tentei ser pastor de vocês, forçando-os a cuidar uns dos outros, e esperando, pacientemente, pelo cuidado de vocês.

Por agora eu me calo, mas, como todos aqueles que em algum momento foram donos do discurso, espero continuar sendo ouvido, mas muito menos por aquilo que disse, e muito mais por aquilo que fui, ou busquei ser. Que Deus os abençoe.

4 comentários:

Alonso Gonçalves disse...

Despedidas são sempre doloridas, ainda mais quando estamos lidando com amigos, companheiros de jornada.
Tenho certeza de que o ministério pastoral nunca será medido pelas construções, conta bancária ou qualquer outra coisa parecida. Se ele puder ser medido, o que é absolutamente relativo, será pelso relacionamentos construidos, pelas amizades conquistadas.
Parabéns pastor pelo seu trabalho.

Grato a Deus pela sua vida,
Pr. Alonso Gonçalves

Carlos Rodrigues disse...

Amor, cuidado, amizade e compaixão não sentimentos e atitudes que se esquece em uma despedida. Não esquecemos enquanto família das suas palavras, deste espaço que lemos continuadamente. O calar-se é necessário para ouvirmos o eco de nossas palavras; palavras que tiniram, troaram e trovejaram alto com toda certeza. Mas, que seja breve este cálice então; suficiente para ouvir os ecos da compaixão e cuidados plantados ao pé da cruz. Depois, que venham as palavras do Reino; maior do que todas as palavras, melhor do que todas as outras. Obrigado, Clademilson! Pelo pastor que foi e ainda é para esta família; pelo amigo que sempre será.
Abraços de todos nós; do Carlão, da Elaine, do Marcus e da Graziele.

Claudinei Fernandes disse...

É dificil encontrar palavras para comentar. Só gostaria de dizer uma coisa. O reino de Deus se fez percebido nessa comunidade. Clademilson, Que Deus o abençoe muito, sua vida foi o melhor pastoreio que a missão poderia ter. Um forte abraço.

Natanael Gabriel da Silva disse...

Clademilson,
Você e a família são especiais para nós. O trabalho batista, particularmente o pastoral em Campinas, ficou mais pobre.
Estamos orando por vocês.